segunda-feira, 21 de maio de 2012

Vertical e fundo



No ano passado, fui ao shopping Barra ver a exposição sobre o Titanic. 
O assunto é velho, eu sei. Mas eu sou, de certa forma, uma pessoa repetitiva e antiga. 
Muito.
E isso não é porque eu sou tipo assim uma criatura de outro milênio como afirma o meu pequeno bípede. Eu já era antes da virada.
Se houve alguma vida em mim antes da minha, provavelmente,  a vivi sob os 25 quilos medievais de uma armadura.
Tenho certa vocação para ser de aço. 
Quando eu era criança, passando-me por um ser fora de moda, quebrei o lustre de cristal que havia sobre a cama dos meus pais. Não resisti à haste de metal frio e a balancei de lá para cá, gritando homens ao mar. 
Na minha cabeça, naquele quarto havia uma inundação. 
E onde há inundação, há afogados.
Na exposição sobre o Titanic, cada ingresso valia um boarding pass. 
Já escrevi sobre isso aqui no bloguinho.
O meu dava direito a um beliche na terceira classe.
E o meu me fez de novo mulher. Não foi o Roger Vadim nem Deus, ainda que eu tenha vindo com nome de alma. Alma Cornelia  alguma coisa, uma sueca com um monte de filhos, viajando sem o marido e sem falar língua nenhuma além da do desamparo.
Essa fui eu.
Morri, é claro.
Morri também na semana passada.
Na semana passada, entrei em um sonho que se chamava Alice Entalada bem Debaixo do Ventilador de Teto .
No Alice entalada, havia naturalmente um buraco. Vertical e fundo como deve ser um buraco que se preze.
No meu buraco caí fugindo de um Tsunami. 
Antes de encontrar um telhado pra subir, eu tinha de encontrar o meu pequeno bípede, a figurinha que agora me data como quinquilharia do passado. 
Encontrei o Fifus. O Fifus é o neto do Bono, o melhor cão do mundo. Por dois dias, o Fifus se chamou Tchê. Como não demonstrou talento revolucionário nem espírito gaudério, enfifou.
E vai muito bem, obrigada. 
No Alice Entalada bem Debaixo do Ventilador de Teto, assim que recolhi o quadrúpede, pisei sobre umas tábuas e caímos até a metade. 
E foi só eu cair para o pequeno bípede mostrar os olhos de curumim lá em cima.
Vai embora, corre que a água está chegando, gritei.
Ele pareceu não entender. 
Então, surgiu outro rosto. Rosto que conheço como o meu, que mapeio como o meu.
Salve-o, pedi.
E quase, quase vi em seus olhos o desenho de um sim.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Ovelha negra



No domingo de mães, fui à missa. 
Eu não sou de ir. Não fiz a primeira comunhão.
Fui batizada por falta de livre e espontânea vontade. Se dependesse do meu sim, a resposta teria sido não.
Entretanto, submeti o meu pequeno bípede à pia batismal nessa mesma igreja em que fui a missa. Queria que a Ana Paula e o Marcelo se responsabilizassem por ele.
Vai que morro antes da hora. 
Teria sido mais animado, é verdade, se eu tivesse ido à festa na casa do Bolinha e toda assanhada.
Não deu.
Fui até a São Manoel  abraçar um amigo que perdeu o pai. 
Os olhos alagados da mãe dele estavam lá. Muitas mães estavam lá. 
Um pouco antes do encerramento, o padre disse que no final daria  um santinho de presente para aquelas que deram a luz e pediu, por favor, que ninguém se apresentasse mentindo.
Precisava guardar alguns para a próxima celebração. 
Estranhei.
Mas como não sou do rebanho...
Depois,  no mesmo tom, falou: "ele aceita quem o teme." 
Ele Deus, de Deus ele falava. Deus aceita quem o teme.
Bem, sou dada a medos, muitos. 
Tenho medo de assalto, de atropelar um pedestre, de ser atropelada por uma bicicleta, de ter  ter câncer antes de ter Alzheimer, de ver o que não posso.
Mas de Deus não tenho.
Nunca tive. Tampouco do pai,  da mãe e do espírito santo.
Tenho medo da maldade, do desamparo e de malucos. 
No mesmo dia, encontrei duas.
Dando uma volta na quadra com os meus quadrúpedes, vi uma empurrando um carrinho de bebê. 
Fui espiar a criancinha e lá estavam eles, os furões.
Quatro. Perfeitamente cobertos e perfumados.
Furões, pra os que não sabem, são animais carnívoros pertencentes à família dos mustelídeos, sendo parentes próximos do cão. Não sei se latem e mordem. Suspeito que não andem.
A outra,  encontrei na missa em que fui abraçar o meu amigo que perdeu o pai.
Beata old school e enfeitada de rosários e lágrimas levava, no corpo, cuecas surrupiadas do filho.
Cuecas,  em brasileiro, roupa íntima masculina.
Felizmente, não as vi. Estávamos longe dos banheiros. Obrigada, senhor! 
Do anuncio que chegará o dia em que usarei as do meu filho, não escapei.
Usarei?
Deus me livre de viver para saber.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tamanho não é documento



Para o meu pequeno bípede


Não vai faltar gelo, disse uma revista.
Vai faltar emprego, amigos e felicidade para quem tem baixa estatura, disse a mesma publicação em uma outra matéria.
" Do alto tudo é melhor" e tamanho vale "poder e dinheiro".
Well, e esse well está aqui porque os bois que dão nomes às fontes das notícias não falam a língua de Lê e, entre citá-los e apenas deixar a diferença de idiomas visível, já fiz minha escolha.
Os bois, bem, os bois entraram por conta de Vacaria.
E Vacaria entrou porque eu sou de lá e gosto de dizer: Va-ca-ri-a!
Sei que não é o mesmo que dizer Lo-li-ta, mas isso não importa.
O importante é que, contrariando as previsões alarmistas de uma conferência da ONU sobre o aquecimento global, o mundo não vai acabar, e os glaciares da cordilheira do Himalaia não desceram montanha abaixo e ainda ganharam uns quilinhos.
O Monte Everest, a celebridade das neves, perdeu. Celebridade tem de ser esbelta e deixar à vista só a ponta branca e pura do iceberg.
Se o desmonte do Everest vai gerar problemas, há ainda especulações.
Coisa que não acontece com a família escadinha que ilustra o especial sobre as alturas.
O pai mede 1.78. A mãe, 1.72. E os frutos, sabe-se lá como,  medem 1.96 e 1.92.
Mistérios da natureza.
Aqui em casa, também temos uma escadinha. Talvez, apenas alguns degraus.
De fabricação cem por cento nacional, alcançamos todas as prateleiras, exceto as da cozinha. Usar a travessa marrom de bolinhas brancas implica usar mais que a ponta dos pés.
Bom humor e boa vontade contam, principalmente, para os que já alcançaram o teto dos ossos e tem de socorrer o pequeno  que ainda não alcançou nenhum pico.
Nem o de crescimento.
Nem o de conhecimento.
E que segue atado ao peso das informações preconceituosas de que alegria e realização pessoal se medem em autoridade, metros e cifras.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Na língua de Lê


Na capa da minha gramática está escrito: Gramática de Língua Portuguesa.
Nos meus livros escolares, o nome também era esse.
Entretanto, no manual de instruções do meu carro, eu me encaixo em uma falante de Brasileiro. 
De certo, um novo idioma. 
E, sim, eu leio manuais. Leio desde a Apresentação dos Comandos (em Brasileiro) até os Problemas de Funcionamento (também em Brasileiro). 
(Em Português) ocorre uma pequena variável, e os problemas transformam-se em Anomalias de Funcionamento. 
Anomalias de funcionamento eu tenho. E  em qualquer língua. Mesmo a do P.
P eu P que P ro P fa P lar.
A primeira coisa que faço quando acordo é acessar o menu das minhas funções personalizadas.
Abro insistentemente os olhos pra ligar meu rastreador e saber onde estou.
Dependendo da noite, acordo em Timbuktu. Dependendo, no meu quarto.
Mas posso acordar também em Nova Iorque ou em Vacaria.
Sim, Vacaria existe ainda que não esteja no aplicativo Cities I've Visited, do Facebook.
Diz o aplicativo que eu já estive em 104 cidades em 21 países, exceto a responsável por eu falar Brasileiro.
Talvez, seja uma questão de frequência consoante tanto a  minha zona mental  quanto geográfica e, tal qual algumas estações, eu  tenha de me activar e desactivar para ter uma cidade natal.
Talvez, eu precise de ajustes.
Mínimos e máximos. Ou de um recall.
Não sei.
Nem na língua do P.
Nem em Brasileiro.
Nem em Português.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Planetinha peludo


Quatro mil, oitocentos e sessenta e oito passos.
Duzentas e oitenta e sete calorias consumidas.
Exatos três quilômetros em caminhada acelerada no parque  que mora ao lado.
No parque que mora ao lado, correm pessoas, passeiam pessoas, vivem pessoas. 
No meio, há canteiros de flores. 
Em uma ponta,  há quem coma  miséria em latas.
Na outra, para compensar o que entra, há quem abaixe as calças e defeque sua humanidade virado de bunda pra vida.
No parque há também cães e donos.
Bípedes como eu e quadrúpedes como o meu Bono.
Duplas com um pé atrás do outro, com dois pares de patas umas atrás das outras.
Quase todas com o  objetivo de entrar em forma, criar uma forma, manter a forma. 
O Bono perdeu a dele.
O Bono, com esse nome de bolacha, de uma hora para outra, ficou redondo e entrou em órbita. E, planetinha peludo sem satélite, colidiu com a preguiça e com a vontade de ser pantufa,  chinelo velho sem um pé torto, cão sem pulgas.
Então, fomos para o parque dar quatro mil, oitocentos e sessenta e oito passos.
Perder duzentas e oitenta e sete calorias.
Andar exatos três quilômetros. 
Fomos.
Perdemos.
Andamos. 
E voltamos para casa, pé depois de pé, pata depois de pata, derrubados por um certo cansaço e,
estranhamente, muito, muito mais pesados.

sábado, 14 de abril de 2012

Nome sem letras

Nome sem letras
revela o teu tamanho,
devolve o contorno da palavra
moradora do teu avesso,
da verdade traçada à nanquim,
da impressão dos teus olhos
e das janelas que
guardam
em meus lábios
nuvens nascidas
por ti.

sábado, 24 de março de 2012

Despalavreada

A despalavreada língua do silêncio
desempedra as sílabas
com que me engasgo em
sons redondos feito balas
enquanto chove
pelo o meu interior
o seu copo
ladrão de
nuvens.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O bloguinho agonizante II

Recebi um bilhete. Ele me escreveu.  Não reconheci a caligrafia. Na verdade, não tinha. Mas o preto no branco me pareceu familiar. Vai ver usamos o mesmo teclado branco no preto. Nós dois sem cores e como uma película de cinema mudo. Ele eternamente sem voz. Eu, de vez em quando, falante. Ele rindo,  dizendo que acredita que bípede até posso ser e um tanto curioso pra saber por onde andam os meus pés. Se ainda ando ou se só vou de arrasto em arrasto, engatinhando e rastejando por ali, por aqui, escreveu. E eu li. E me senti um dos sete pecados. Depois, dois deles. E tive de pensar e me poupar pra não me enquadrar em mais algum. E escapei da gula. Vida de magrela tem dessas coisas. Se escapa por aqui, mas  se cai quase que na avareza ali. Quase. Bípede avarenta jamais! Sensata, sim. Escapei também da inveja, da ira, da  soberba. Todos frágeis demais diante da preguiça, haja preguiça eterna para uma mente adormecida sem ser bela.  Haja preguiça para uma mente desblogueada e desembonecada de lixo se vencer e aderir a  de se lixa, que ele me escreveu, escreveu, sim, reclamou, teclou, agitou e eu apenas disse, cala-te blog antes que eu escreva  fim.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Passarim quis pousar

De sílaba em sílaba,
passarim bica as palavras
e forra o ninho.
Vai dando relevo e,
da educação pela boca,
surgem as formas,
nuvens quase no chão,
tramadas à mão
e para as mãos,
mãos de caligrafia,
mãos de rancor,
 duras de amassar o pão
 e de fazer do miolo,
 os versos e,
 das migalhas,
os verbos enfileirados
entre os  tantos galhos
apedrejados
por pregos
sem perdão.

domingo, 11 de março de 2012

No desalento do corpo

No desalento do corpo, 
recebe instruções a alma.
No desalento dos gestos,
desfaz-se, em cruz, o instinto. 
E sofrem e emudecem e prendem-se às semelhanças
as carnes e as argilas
das casas em que ninguém habita, 
das casas em que há sob a pele outras paredes
e em que desordenam-se as cores com que
brincamos de destino e de vida.

  

De Fábio Daflon: Bípede Falante

Bípede falante

para Lelena Terra Camargo

prisioneiras da Torre de Babel,
sem castelos de sonhos ou cartas,
as bípedes falantes ruivo-negras,
solteiras, casadas boas amantes
ou mal resolvidas, divorciadas
discretas, virgens e viúvas – gêmeas
assemelhadas pela solidão – ;
na soleira da porta não esperam
nada: exceto por fobias, vão à luta.

sem olvidar detalhe, marca no mento:
uma cova, sinal de nascença
em pintura, luz amarela japonesa,
marfim africano nos dentes,
pele de pantera azul tigresa,
molejo nos quadris da brasileira,
caucasiana, nórdica, nordestina
miscigenada em falsa blonde,
mameluca sem arco e flecha tatuados
na memória da pele, mas falante
com sotaque (sultaque?) gaúcho
no momento do e agora tchê?!...

minuto decisivo da nudez plena
quando raptada por poeta traça
sobre lençol braços e pernas,
seios e nádegas, misteriosas
púbis sem segredos, mas enigma
apenas generoso, caído da torre
como revelação não para devorar
ou ser esfinge, embora seja amor
incognoscível para ser repetido
eterna descoberta, cabida na ternura
livre de quem se sabe e desenha
o ruir das diferenças das línguas
de fogo a destruírem torres sem
qualquer sentido, no gozo de
uma paz de encantar meus olhos,
música de fundo como celebração.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A palavra suspensa

A palavra suspensa balança
a imensidão sem voo
de uma nuvem sem casa.
A palavra suspensa passeia
próxima à antiga infância
de não ferir o coração.
A palavra suspensa redesenha
linha a linha, a argila e as águas,
e repesca, dos cardumes,
os brancos da carne à espera
da alma do amor.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Da série sem seu amor não sei nada III


Fotografei o início do mundo pra você me saber.
Acordei antes do céu.
Acordei antes do sol.
Fotografei a espuma perdida da onda.
Flutuei pra não machucar o chão.
Brinquei de pele com a areia e guardei pra depois um último grão.
Estacionei o sonho pra você não partir.
Estacionei o amor pra você me parir.
E, sobre as horas, escrevi uma frase
e a colei nessas madrugadas
de nuvens sem os seus olhos de
arder.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A condição indestrutível de ter sido

Arranca do interior
a pele do meu livro,
escrita inconstante de um silêncio
incerto como os movimentos de meu corpo,
como as cápsulas guardiãs
dos mitos e dos suspiros,
das linhas que não ultrapassam e
não respiram
a condição indestrutível de ter sido,
por alguém,
um amor perdido.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Na curva desterrada do corpo

Chamas na  curva desterrada do corpo,
curva de gotas e sílabas,
curva líquida, aérea e tonta,
tonta na contração dos sons, dos
sons entalhados
em nuvens e em orgasmos,
se doam e desdobram
no vai e vem de fértil solidão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Da série a mulher do meu avesso II



IV

A mulher do meu avesso
escuta  por entre os dedos
os segredos rachados
das nuvens
sem palavras.

V

A mulher do meu avesso
desfaz no corpo
a prece descascada
pelos voos caídos
do  amor.

VI

A mulher do meu avesso
sofre de águas
e de retratos cansados
à beira ar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Da série a mulher do meu avesso



I

A mulher do meu avesso
guarda sílabas
para fazer, dos fonemas
e dos acentos, os
sotaques dos
meus silêncios.

II

A mulher do meu avesso
repete letras como se fossem
elas sementes
e faz, da sombra dos verbos,
um abrigo para a rocha
e um leito para
o que sente.

III

A mulher do meu avesso
lima a ausência das palavras
e visita a vida que
mal cabe entre os
dedos e formas
esculpidas
em pedras sem pesos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Da série há nuvens nos meus olhos

Molha as lágrimas
com uma chuva
de nuvens,
nuvens
de palavras e
pedras
presas na linguagem  e
esculpidas nos silêncios
das esferas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Da série há o mar nos meus ouvidos

Há o mar nos meus ouvidos, verbo aquático a calar o vento sul, esse sopro da minha rocha e dos silêncios da minha essência. Há o amar afogado no lado de dentro do dentro dessa muralha em que  rio das histórias e das correntezas que movem os meus afagos.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Da série em busca do ano-novo II

Desfolhas as palavras em pétalas ocultas. Desfolha em sílabas que se vestem e despem na pele dos calendários que se abrem nos brancos de nuvens perfumadas de sons,  os pequenos desagues do querer feito a chuva impaciente do cotidiano  em que as tranças da esperança inscrevem-se no hálito e nos estilhaços dos dias e das frases por onde se movem  raras afeições.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Da série em busca do ano-novo

Em meio as palavras finais, visitam as linhas as novas, os sons instaurados pelos desejos moradores do que está por vir, futuro feito de presentes livres do embrulho das horas e dos monólogos das paredes em que as saídas não sabem por qual caminho ir.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Fatal

Não sabe carregar sacolas. Passa as mãos pelas alças, fecha os dedos e as transporta, mas não sabe. Pesam os pacotes. Pesa a solidão embrulhada pra viagem. Pesam as ausências apagadas dos cartões, os traços sem luz pregados nos ecos e na madeira dos olhos e das peles dos que tiveram de ir.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Da série sílabas sem palavras

Face sem voo
visitante do  olhar
e das nuvens de
sílabas sem palavras
estende o retrato
sobre as  asas
ainda não
despedaçadas.

Da série sem seu amor não sei nada II

No abrigo
da carne
procura um pedaço de
nuvem e um
pedaço de chão.
No abrigo
da carne
procura o silêncio
testamento 
do sêmen
da alma e
nudez 
coloridos
nas sílabas das
suas mãos.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Da série sem seu amor não sei nada


na palavra
de seu corpo,
zona erógena de sua
essência,
o corpo inscrito,
corpo ponte de orgasmos,
corpo com outra cor,
carne deitada sob o
véu da pele
no fragmento
de cortar, nas horas,
os minutos
do meu
amor.

Da série melancolias

Minha língua tem
de errar
como as palavras
que digo
como as cores
que desboto
como o vestido que
dispo.
Minha língua tem
de ser perder
por onde não me procuro
e por onde me
embaça
de calor
a pele com que
me visto.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Repouso

Entra, vem descansar, encosta as letras nas minhas palavras, deixe-as, assim, silenciosas como se estivessem ausentes, elas que se multiplicam no raro verbo do trânsito das nossas salivas, da nossa língua revestida de vontades, idioma de nossos corpos, corpos com tanto por dizer, por fazer,  por ser.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O bloguinho agonizante

Agoniza o bloguinho, bloguinho trocado por um bloco de notas e uma caneta Stabilo, que a era Bic já foi. Foi com a do gelo sob o sol escaldante de Porto Alegre, porto sem navios e poucas velas, com exceção das natalinas, pesadelo estético dos exageros de dezembro a queimar as ideias, dezembro embolado por pinheirinhos,  barbas brancas e compras, compras sem fim. Agoniza o bloguinho, praticamente, diz adeus e diz sem acenar porque não vê graça alguma em dobrar  uma esquina sem sair do lugar.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Epiderme

Como se o corpo
fosse de terra
e, na terra,
nascessem peles,
borrifaram-se,
os verbos,
na essência
dos descascados
urros.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Da minha pele

Carne e alegria
da minha pele
no calafrio
de suas palavras
o meu verbo rejuvenesce
e se refaz
no horizonte
de sua curva
ainda na saliva.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ficções - Rebanhos

E daí você vai me dizer que é logo ali, depois daquele outro corredor, o setor de achados e perdidos? Vai me falar como quem abre a boca pela primeira vez, surpreso por ter dentes e língua e vontade, falar, não, vai me ordenar que eu apresse o passo porque o tempo se desmancha na saliva quando, na verdade, o que você quer é   medir o meu território e confirmar a sua suspeita que por de trás dos meus  eu não consigo encontrar e dos meus jeans cheios de buracos esconde-se o latifúndio sob medida e pronto para a viagem dos seus rebuliços de natureza estética e biológica, suas obsessões com a parafernália do universo ilimitado das minhas perdas e pernas não devidamente registradas, oh, pernas,  e vai, vai palavrear, rindo para mim ou de mim, que, se for preciso, me dá até uma ajudinha, o pequeno empurrão necessário em favor da era prometida da recuperação e telefonar para as autoridades competentes, tudo isso embasado no seu talento para  pintor de paredes e de ovelhas, você, o revolucionário  carnívoro desse meu indefeso rebanho?

O pequeno bípede

O pequeno bípede diz que a bípede anda maneta. A bípede reconhece. O pequeno bípede diz que ela é daltônica. A bípede responde que não é bem assim. O pequeno bípede pergunta a ela o que é compostagem e se irrita porque ela não sabe direito sem dar  uma olhadinha no google. O pequeno bípede continua pequeno mas, de repente, parece tão grande.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Movimento

Porque deita na rede para mover a alma, escorre o sangue tinto do querer, e, da madeira do copo abandonado, a saliva métrica derrama-se entre  soluços e  suspiros, verbos de saudade acolhidos em silenciosa melodia.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Interrogações

De que se veste e despe a selvageria das ausências, signo sem contornos de um hemisfério cortado em mapas? De que me visto e dispo, eu, a caligrafia cristalizada na matéria fria do teclado, carne recortada na inquietação e no enigma das geografias desalinhadas?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Ele está aqui - Parte I

        Dizem as boas almas que no início dos mundos ou sei lá de que forma de vida era o verbo. Conjugado, imagino, assim: eu estou aqui, tu estás aqui, ele está aqui.  Digo eu, apenas alma dentro de um corpo, que apesar do futuro ter feito do presente um passado, o verbo, quando escapa da boca, continua a conjugar-se com o eu estou aqui, tu estás aqui, ele está aqui­, ao menos na minha história. E essa minha história é uma narrativa bastante simples sobre como o ele está aqui conseguiu continuar a ser um ele está aqui depois de sete anos anos ausente, dado como desaparecido, esquecido, morto. Talvez, seja necessário explicar como esse ele está aqui nasceu para ter conseguido em um tique-taque de relógio nos colocar no mesmo ponto zero, sob o mesmo céu, dentro das mesmas paredes nesse exato momento em que escrevo. Então, passemos ao nascimento.
        O nascimento do ele está aqui não envolve nenhuma fêmea, nem sangue e nenhum tipo de parto. Está mais ligado a um tipo de pato sem penas e sem asas também conhecido como bípede humano. No caso, a um exemplar masculino, de tamanho padrão, silencioso e com ficha suficiente para pagar um seguro fiança de uma imobiliária também padrão, alugar e se mudar para um apartamento em um prédio discreto, pequeno e habitado por uma única família: o meu e a minha. Em síntese, um pato suficientemente quá-quá para trazer com ele um outro tipo de ave.
       Eis o prédio: quarentão recauchutado, quatro apartamentos, garagem com vagas limitadas para o uso de dois, desbotado por livre e espontânea vontade de algumas latas de tinta, uma escadaria dada a vertigens e a um corpo que cai, é bem verdade um pouco imperfeita para um assassinato, porém ideal para uns dois meses de gesso e de imobilização, flores nas janelas, câmeras de vigilância desligadas pelo excesso de auto-estima, tradição e espírito pacífico dos moradores, ou seja, o meu e o do meu pessoal, ou mais ou menos isso.
        O meu pessoal. Conte até três e você o terá na palma da sua mão. Somos ele, ele e eu, sendo o ele do meio uma criança. O ele mais velho, o mais bem humorado. O do meio, o segundo mais bem humorado, e o eu eu, bem,  o eu em questão, siga me lendo e você poderá definir com as suas próprias palavras.  De qualquer forma, não se preocupe. Ajudarei. E vai ser fácil porque sou a mãe do ele do meio e por essa condição declaro-me, por livre e espontânea vontade, que sou a antidesnaturada na máxima potência, o que, traduzindo, significa que posso ser uma pedra, um rochedo, uma cordilheira no caminho de alguém se o caminho desse alguém atropelar o da minha cria. Aí, para me derrubar, só usando dinamite. E, ainda assim dinamitada, acho que eu encontraria um jeito de retornar, nem que fosse em forma de asteróide em rota de colisão.
        Mas voltemos ao pato e ao nascimento do ele que está aqui outra vez depois de sete anos. Pois bem, sei que esse ele está aqui não entrou dentro de uma mala sem rodinhas ou alça devido ao seu visível excesso de peso. Talvez, tenha entrado em uma caixa de madeira, infelizmente, não despachada para Timbuktu. Não sei. Sei que o ele está aqui entrou e ganhou uma chave e que a primeira vez que o vi, vi um desenho surreal personificado em uma face humana. Dentro da cabeça de ovo brigavam um par de óculos sem olhos com um sorriso mole cheio de dentes muito grandes como os de um lobo e entre eles cicatrizes e tatuagens, espécies de gárgulas presas a pele. Isso foi o que eu vi em uma visão impressionista ou intuitiva, porque cicatrizes existiam. As tatuagens de gárgulas ficam por conta da minha interpretação. Eu gosto de interpretar e adoro a estética impressionitas. Acredito que o cérebro compreende coisas sobre as coisas antes de formatá-las por inteira. Eu costumo ser criticada por ter esse jeito. "Não seja dura com as pessoas. Você está vendo coisas onde não há. Ih, cuidado com a paranóia" são alguns exemplos de frases ouvidas pelas minhas orelhas cuidadosas. Aliás, orelhas, nariz e olhos cuidadosos, que, ao contrário das famosas figuras do macaco que nada escuta, vê ou  sente, eu sou uma xereta perspicaz. Minha curiosidade, em um certo ponto de vista, é a minha grande adversária. A personagem do James Stewart, no Janela Indiscreta, é uma das minhas favoritas. E já que o assunto janelas entra em pauta,  aproveito a deixa para falar do pato que alugou o apartamento e que trouxe com ele essa gaiola que é o ele que está aqui.
        O pato que alugou o apartamento e trouxe o ele que está aqui era, ou queria ser, um artista. Todos os anoiteceres, acendia a luz do quarto que dá de frente para o meu escritório e, de cortinas escancaradas, jogava cores sobre telas enormes. Daqui de cima, eu não podia ver detalhes, mas via os movimentos e os tons. Então, na primeira oportunidade que tive, perguntei a ele se uma hora dessas eu poderia ver um quadro de perto. Claro que poderia. Fui lá ver sem perceber que entrar em casa alheia significaria abrir a porta da minha.     
        

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quase água

Pingos
escorrem
pelas janelas
das tuas nuvens
mães
das tuas palavras
oceanos quebrados
sobre o peso
da tua quase
água.

sábado, 5 de novembro de 2011

Tiro ao alto

Gênio da lâmpada, não me atenda. Não coloque nas minhas mãos uma bazuca. Não coloque veneno na minha boca. Gênio da lâmpada, apenas empresta-me um tapete mágico e adicione no meu celular uns três ou quatro disque-paciência e disque-polícia. Se tiver o número do capitão Nascimento, juro que pego uma faca de cozinha e com ela desconstruo um bicho de sete cabeças, mesmo a da mais louca e te ofereço em monumento. Gênio da lâmpada, explica-me, que eu não entendo,  não entendo, essa  dinâmica podre de dar asas a quem não têm decência e sentimentos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Todo bípede dia

Sete bilhões de bípedes a circular pelos vinte e cinco por cento de terra do planeta. Aqui, por essas bandas, um pouco mais de um milhão e sempre, invariavelmente, todo bípede dia, um dentro de um carro ou de um caminhão em frente a minha garagem. Em frente na hora em que saio, na hora em que volto. Em todas as horas. Alguém feito um encosto a falar no celular, a esperar outro alguém, a fazer umas compras, a qualquer coisa. Um alguém, sempre com o mesmo sorrisinho falso de que nunca faço isso,  é só por um minutinho. E eu, aqui por essas bandas, cada vez mais próxima de subir em uma árvore,  dar um salto e jogar fora, de uma vez por todas, essa minha  bipedice.

Mundo bípede


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Devido as afirmações do senhor bípede de que a BF é conservadora com a aparência do blog e não troca a imagem de cabeçalho, seu retrato de menina, pintado à beliscão no braço para que se aquietasse, a pergunta é: troca ou não a imagem?